PANORAMA NACIONAL — JORNALISMO DE ANÁLISE E CONTEXTO quarta-feira, 22 de abril de 2026
Brasil

Remissão e cura do câncer: distinções e avanços na terapia celular no Brasil

Os conceitos de remissão e cura são frequentemente utilizados para descrever os resultados do tratamento oncológico, mas possuem significados distintos. A cura do câncer é caracterizada pela ausência completa da doença, confirmada após um período mínimo de cinco anos sem sinais clínicos ou laboratoriais do tumor. Antes desse intervalo, a condição é definida como remissão, que indica a não detecção do câncer pelos exames disponíveis, mas não descarta a possibilidade de células tumorais residuais.

Rodrigo Calado, professor titular de hematologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, explica que a remissão exige acompanhamento contínuo, com exames periódicos para monitoramento, dada a possibilidade de recaída. O protocolo de vigilância inclui inicialmente exames trimestrais, evoluindo para intervalos maiores conforme o tempo sem sinais da doença, conforme detalha Vanderson Rocha, professor da USP e coordenador nacional de terapia celular da rede D’Or.

Avanços da terapia CAR-T Cell no Brasil

O tratamento inovador CAR-T Cell, que utiliza células de defesa do próprio paciente modificadas em laboratório para atacar o câncer, tem sido aplicado em estudo clínico no Brasil, financiado por órgãos como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A técnica é oferecida de forma compassiva a pacientes com estágio avançado de leucemia linfoblástica B e linfoma não Hodgkin de células B, com resultados promissores de remissão em mais de 60% dos casos tratados pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

O publicitário Paulo Peregrino, que conviveu com a doença por 13 anos, obteve remissão completa em apenas um mês após receber a terapia CAR-T Cell. O caso é acompanhado pelo médico Vanderson Rocha, que destaca a rapidez e a eficácia da resposta ao tratamento. Imagens de PET Scan demonstram a redução significativa dos tumores, evidenciando o potencial da terapia.

Perspectivas e desafios para a incorporação ao SUS

Atualmente, o CAR-T Cell está disponível na rede privada brasileira a custos elevados, superiores a R$ 2 milhões por paciente. A iniciativa pública visa ampliar o acesso, com previsão de tratamento para 75 pacientes ainda neste ano, mediante autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o estudo clínico. O projeto inclui a instalação de duas unidades de produção em São Paulo e Ribeirão Preto, com capacidade inicial para 300 tratamentos anuais.

A Anvisa tem priorizado a análise do protocolo apresentado pelo Centro de Terapia Celular da USP, em colaboração com o Instituto Butantan, facilitando o desenvolvimento e a regulamentação dessa terapia avançada no país. Com o financiamento adequado, o estudo clínico pode consolidar uma nova indústria biotecnológica nacional, ampliando as opções terapêuticas para pacientes oncológicos.