PANORAMA NACIONAL — JORNALISMO DE ANÁLISE E CONTEXTO quinta-feira, 30 de abril de 2026
Brasil

Matrículas femininas em cursos técnicos de tecnologia nas Etecs registram queda significativa em 2025

Os cursos técnicos integrados ao ensino médio nas Escolas Técnicas Estaduais (Etecs) registraram uma redução expressiva no número de alunas matriculadas em 2025. Conforme informações divulgadas pelo Centro Paula Souza, responsável pela gestão das Etecs, o total de estudantes do sexo feminino caiu de 11.923 em 2024 para 9.392 no ano seguinte, o que representa uma retração de 21,2%.

Em contraste, a presença masculina permanece majoritária, com mais de 26 mil meninos inscritos nos mesmos cursos no último ano. A diminuição mais acentuada na proporção de mulheres ocorreu no curso de Desenvolvimento de Sistemas, que viu a participação feminina recuar de 48% para 37% dos matriculados entre 2024 e 2025.

Contexto e desafios na formação

O levantamento considera diversas áreas técnicas relacionadas à tecnologia, incluindo Eletroeletrônica, Eletrônica, Informática, Mecatrônica, Programação de Jogos Digitais e Redes de Computadores. Estudantes relatam que o ambiente predominantemente masculino pode impactar a permanência e o desempenho das alunas. Geovana Carolina Jesus Pereira, atualmente cursando Desenvolvimento de Sistemas na Etec Parque Belém, compartilhou que o cenário inicial gerou insegurança a ponto de cogitar desistir da formação.

Além disso, relatos de ex-alunas evidenciam episódios de preconceito e comentários desmotivadores durante as atividades acadêmicas. Yasmin Pilla e Giovanna Mattar Romariz, da Etec Raposo Tavares, destacaram situações em que a competência feminina foi questionada com base em estereótipos de gênero, o que contribui para um ambiente escolar desafiador.

Barreiras culturais e estratégias institucionais

Especialistas apontam que a evasão feminina nas áreas tecnológicas está relacionada a fatores culturais e sociais, como autocobrança exacerbada e discriminação de gênero, que se manifestam desde os primeiros anos escolares. Aparecida Maria Zem Lopes, doutora em Ciências da Computação e coordenadora do grupo Girls in STEM na Fatec de Jaú, ressalta o receio das estudantes em relação às disciplinas de exatas e a percepção de exclusão em campos tradicionalmente masculinos.

Essa realidade se traduz no mercado de trabalho, onde as mulheres representam cerca de 30% dos profissionais da tecnologia, segundo pesquisa conjunta do PretaLab e da ThoughtWorks. Para enfrentar esse cenário, o Centro Paula Souza implementa iniciativas como o projeto Meninas na Ciência e planeja ampliar o suporte às estudantes com novas ações previstas para 2026, incluindo trilhas de desenvolvimento de carreira específicas para o público feminino.

Apesar dos obstáculos, estudantes como Lara Motta Carneiro Silva mantêm o compromisso de seguir na área tecnológica, visando contribuir para a ampliação da participação feminina no setor.