Na China, a intensa pressão acadêmica e social tem levado adolescentes a recorrerem ao uso inadequado de medicamentos controlados como forma de aliviar o estresse e a ansiedade. Casos como o da estudante Xiaomei*, de 14 anos, ilustram essa realidade preocupante, em que remédios prescritos para tratar condições específicas são consumidos sem orientação médica, frequentemente adquiridos pela internet.
A jovem, pertencente a uma escola de elite em uma província litorânea, começou a usar um medicamento para tosse com efeitos psicoativos, inicialmente para relaxar diante de provas e conflitos familiares. Com o tempo, experimentou diferentes fármacos indicados para epilepsia ou dores neuropáticas, buscando a chamada “euforia farmacêutica” relatada em grupos virtuais de jovens que compartilham experiências e orientações sobre dosagens e alternativas.
Facilidade de acesso e desafios regulatórios
Apesar das recentes medidas governamentais para restringir a venda desses medicamentos, classificando alguns como psicotrópicos e exigindo receita médica, o acesso a esses produtos permanece relativamente simples. Plataformas online continuam oferecendo substâncias controladas a preços reduzidos, e os adolescentes rapidamente buscam novos fármacos quando algum é regulado, conforme apontam relatórios oficiais e investigações jornalísticas.
Essa situação é agravada pelo fato de a China ser um dos maiores produtores globais de ingredientes farmacêuticos, o que facilita a disponibilidade desses medicamentos no mercado interno.
Contexto social e consequências
Especialistas destacam que a pressão exercida sobre os jovens, especialmente em famílias com um único filho, aumenta o isolamento e limita as relações sociais, elevando o risco de transtornos mentais e comportamentos autodestrutivos. O sistema educacional competitivo, com critérios rigorosos para permanência em classes de alto desempenho, contribui para o sentimento de fracasso e desesperança entre os estudantes.
Além disso, o consumo indevido desses medicamentos tem sido associado a efeitos colaterais severos, como alucinações, perda de memória e até episódios de automutilação, aprofundando a crise de saúde mental entre os adolescentes.
Iniciativas e desafios para o futuro
Reconhecendo a gravidade do cenário, o governo chinês tem implementado políticas para ampliar o suporte psicológico nas escolas, com a criação de salas de orientação, serviços psiquiátricos em hospitais públicos e aumento do número de profissionais especializados. O objetivo é estabelecer até 2030 um sistema nacional de atendimento e prevenção para jovens em situação de vulnerabilidade.
Apesar dos avanços, a escassez de psiquiatras pediátricos e a persistência do estigma em torno da saúde mental ainda dificultam a efetividade dessas ações. Especialistas ressaltam a importância do diálogo aberto entre pais e filhos como elemento fundamental para identificar e enfrentar os desafios emocionais enfrentados pelos adolescentes.
Casos como o de Xiaomei evidenciam a necessidade de um olhar integrado sobre a saúde mental, que vá além da restrição ao comércio de medicamentos, buscando compreender as causas profundas do sofrimento juvenil em um contexto de rápidas transformações sociais e econômicas.
