PANORAMA NACIONAL — JORNALISMO DE ANÁLISE E CONTEXTO segunda-feira, 19 de outubro de 2026
Brasil

Pandemias fúngicas: realidade e riscos além da ficção de ‘The Last of Us’

A série “The Last of Us”, sucesso da HBO, retrata um mundo pós-apocalíptico em que uma pandemia causada por fungos do gênero Cordyceps transforma pessoas em zumbis. Apesar do cenário fictício, esses fungos existem e apresentam comportamentos parasitários em insetos, especialmente formigas, controlando suas ações para se reproduzirem.

Na natureza, os fungos Cordyceps invadem o corpo do inseto, crescendo internamente e manipulando seu sistema nervoso para que o hospedeiro suba a locais elevados, facilitando a dispersão dos esporos. Após consumir o inseto por completo, o fungo libera esporos para infectar outros indivíduos, completando seu ciclo de vida. Contudo, esses fungos são altamente especializados e não infectam humanos ou outras espécies além de alguns insetos.

Limitações biológicas e impossibilidade de infecção humana

Pesquisas indicam que a temperatura corporal humana é incompatível com a sobrevivência e proliferação dos Cordyceps, além da complexidade do sistema nervoso humano ser muito maior que o dos insetos, dificultando qualquer tipo de manipulação cerebral por fungos. O sistema imunológico humano também apresenta defesas eficazes contra esse tipo de infecção. Por essas razões, especialistas descartam a possibilidade de uma pandemia fúngica semelhante à retratada na ficção.

Entretanto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a gravidade das infecções fúngicas e divulgou uma lista de 19 fungos que representam riscos significativos à saúde pública. Entre eles, destacam-se a Candida auris, o Cryptococcus neoformans e os Mucormycetes, que podem causar doenças graves e até fatais, sobretudo em indivíduos com o sistema imunológico comprometido.

Ameaças reais e desafios para a saúde pública

A Candida auris, conhecida como “superfungo”, é resistente a múltiplos antifúngicos e pode provocar infecções sistêmicas com alta taxa de mortalidade. Sua transmissão ocorre principalmente em ambientes hospitalares, dificultando o controle e exigindo medidas rigorosas de desinfecção e isolamento.

O Cryptococcus neoformans pode invadir o sistema nervoso central, causando meningite grave, enquanto os Mucormycetes são responsáveis pela mucormicose, uma infecção rápida e destrutiva que afeta tecidos faciais e cerebrais, especialmente em pacientes imunossuprimidos. Durante a pandemia de covid-19, houve aumento nos casos de mucormicose em alguns países, evidenciando a necessidade de vigilância e tratamento adequados.

Importância da atenção às infecções fúngicas

Embora não haja risco de pandemias zumbificadoras, o impacto das infecções fúngicas na saúde global é substancial, com cerca de 1,7 milhão de mortes anuais, superando doenças como a malária. A crescente resistência a medicamentos e as mudanças ambientais aumentam a complexidade do enfrentamento dessas doenças.

Especialistas alertam para a necessidade de maior investimento em pesquisas, diagnóstico precoce e desenvolvimento de tratamentos eficazes para fungos patogênicos. A compreensão das diferenças entre infecções bacterianas, virais e fúngicas é fundamental para a formulação de políticas públicas de saúde e prevenção adequadas.