PANORAMA NACIONAL — JORNALISMO DE ANÁLISE E CONTEXTO segunda-feira, 19 de outubro de 2026
Brasil

Estudo investiga alterações no ecossistema marinho de Fernando de Noronha

Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) iniciou uma análise detalhada do fundo marinho em Fernando de Noronha, com foco no bentos, que compreende o substrato onde vivem corais, algas e pequenos peixes. A investigação busca compreender as transformações ocorridas nesse ambiente, avaliando fatores como aquecimento global, turismo e a presença da espécie invasora peixe-leão.

A pesquisa é coordenada pela professora Liana de Figueiredo Mendes, que estuda a região há 25 anos. O estudo foi solicitado pelo Instituto Chico Mendes da Biodiversidade (ICMBio) para comparar os dados atuais com registros históricos, utilizando a mesma metodologia de amostragem por quadrantes aplicada em levantamentos anteriores, com o suporte de imagens em vídeo e fotografias submarinas.

Metodologia e primeiros resultados

Os pesquisadores revisitam pontos específicos já documentados há mais de duas décadas para avaliar a cobertura de espécies e a qualidade do substrato marinho. As análises preliminares indicam que algumas áreas mantêm boa preservação, enquanto outras, como a Laje Dois Irmãos, apresentam redução significativa na presença de corais e outros organismos bentônicos. Por outro lado, locais como a Ponta da Sapata demonstram condições mais estáveis.

Essas alterações no bentos são relevantes pois sustentam toda a cadeia produtiva do recife, impactando a biodiversidade e a saúde do ecossistema marinho local. A conclusão do estudo, prevista para os próximos dois anos, poderá embasar recomendações para o manejo ambiental, incluindo a regulamentação das áreas de mergulho para contribuir com a recuperação dos habitats afetados.

Influência do aquecimento global e espécies invasoras

O aumento gradual da temperatura da água do mar em Fernando de Noronha tem sido identificado como um dos principais fatores associados às mudanças observadas. Dados comparativos indicam que, nos últimos 25 anos, a temperatura média da água subiu cerca de um grau Celsius, com registros que chegam a 30 graus no verão, o que pode afetar a dinâmica das comunidades marinhas.

Além disso, a presença do peixe-leão, espécie invasora e venenosa detectada na ilha desde dezembro de 2020, está sendo investigada para entender seu impacto sobre as espécies nativas. A equipe realiza análises genéticas do conteúdo estomacal desses peixes para determinar se estão predando pequenos peixes locais, o que poderia agravar as alterações no ecossistema.

O trabalho conta com a participação do mestrando André Reis e do professor Sérgio Queiroz Lima, utilizando técnicas de mergulho livre e autônomo, com apoio das empresas locais de mergulho para a coleta dos dados.