PANORAMA NACIONAL — JORNALISMO DE ANÁLISE E CONTEXTO segunda-feira, 19 de outubro de 2026
Brasil

Especialista destaca importância do check-up cerebral para prevenção do declínio cognitivo

Durante uma palestra on-line, o médico David Dodick, professor emérito da Mayo Clinic e adjunto da Thomas Jefferson University, ressaltou a necessidade de incorporar rotineiramente o check-up cerebral na prática médica. Segundo ele, embora a tecnologia para avaliação precoce do cérebro já exista, ainda não há uma cultura consolidada para esse tipo de exame, que poderia mapear riscos e permitir intervenções antecipadas.

Dodick reforçou que o declínio cognitivo não deve ser considerado um processo natural ou inevitável do envelhecimento, classificando essa visão como uma falha significativa da medicina contemporânea. Ele destacou que as doenças cerebrais afetam cerca de um terço da população mundial, sendo responsáveis pela maior parte das incapacidades e apresentando crescimento expressivo entre as doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes, hipertensão e câncer.

Fatores de risco e dados epidemiológicos

O especialista enumerou doze fatores que contribuem para aproximadamente 40% dos casos de demência, incluindo hipertensão, diabetes, obesidade, perda auditiva, poluição do ar, consumo excessivo de álcool, traumas cranianos, isolamento social, depressão, tabagismo, sedentarismo e baixa escolaridade. Ele alertou que 80% dos casos de AVC e 40% dos de demência poderiam ser evitados com ações preventivas.

Comparando o cenário brasileiro com o dos Estados Unidos, Dodick apontou que ambos enfrentam desafios semelhantes. Nos EUA, 37 milhões de pessoas têm diabetes, quase metade dos adultos sofre de hipertensão e apenas 25% realizam atividades físicas regularmente. No Brasil, são 17 milhões de diabéticos, posicionando o país como o quinto com maior incidência mundial; 30 milhões convivem com hipertensão, e 22,4% da população apresentam obesidade. Além disso, menos da metade dos brasileiros pratica exercícios físicos regularmente.

Janela para intervenção e estratégias de prevenção

O professor destacou a importância da detecção precoce, especialmente em doenças neurodegenerativas como o Alzheimer, que afeta um em cada dez idosos acima de 65 anos. Ele salientou que os sintomas podem levar até duas décadas para se manifestar, oferecendo uma oportunidade para retardar o avanço da doença e amenizar seus efeitos por meio de intervenções antecipadas.

Além disso, Dodick explicou que existem sinais clínicos iniciais, chamados sintomas prodrômicos, que podem indicar o desenvolvimento de enfermidades como o Parkinson, incluindo constipação, perda parcial do olfato e movimentos oculares involuntários. Por isso, a realização de exames abrangentes, envolvendo análises laboratoriais, imagens neurovasculares e avaliações sensoriais e motoras, é fundamental para um diagnóstico precoce.

O especialista também comentou sobre a relevância do sono na manutenção da saúde cerebral, corrigindo a ideia de que poucas horas de descanso seriam suficientes. Ele enfatizou que a insônia é um fator de risco tratável e que a privação do sono compromete a capacidade produtiva e cognitiva.

Por fim, Dodick mencionou o potencial neuroprotetor de medicamentos usados para diabetes, como a metformina e os inibidores SGLT2, além de destacar o valor do treinamento cognitivo, exemplificado pelo Teste de Stroop, para preservar as funções cerebrais. Ele conclamou a integração das especialidades médicas, propondo a colaboração entre as sociedades de diabetes, cardiologia e neurologia para aprimorar o manejo das doenças cerebrais.