PANORAMA NACIONAL — JORNALISMO DE ANÁLISE E CONTEXTO domingo, 26 de abril de 2026
Brasil

Pesquisadores indígenas do Pará ampliam ciência a partir de saberes tradicionais e territórios

O aumento significativo da participação indígena no ensino superior brasileiro, especialmente na Amazônia Legal, tem promovido o fortalecimento de uma ciência que dialoga diretamente com os saberes tradicionais e a vivência nos territórios. Entre 2012 e 2022, mais de 53 mil estudantes indígenas ingressaram em universidades públicas na região, refletindo um avanço recente frente a uma história de exclusão acadêmica desses povos.

Essa transformação é exemplificada por pesquisadores como Manoela Karipuna, Emiliano Kaba e Vera Arapium, que desenvolvem estudos no Pará a partir da experiência em suas comunidades. Suas pesquisas abrangem temas como meio ambiente, organização social e preservação linguística, evidenciando a importância da ciência indígena, construída por gerações a partir da observação da natureza, da oralidade e da transmissão cultural.

Integração entre conhecimento tradicional e acadêmico

O biólogo Emiliano Kaba, do povo Munduruku, destaca a complementaridade entre o conhecimento científico e a prática tradicional no manejo de fauna silvestre, especialmente diante das alterações ambientais provocadas pela urbanização e o desmatamento. Seu trabalho inclui o resgate de animais em áreas urbanas e o acompanhamento das práticas sustentáveis na Terra Indígena Munduruku, reforçando a necessidade de equilibrar o uso dos recursos naturais.

Já a antropóloga Manoela Karipuna, doutora pela Universidade Federal do Pará (UFPA), investiga o papel das mulheres indígenas na manutenção dos saberes que sustentam a vida comunitária, como o uso de plantas medicinais e a participação em rituais. Sua pesquisa enfatiza a oralidade como fundamento para a preservação da memória e da cultura, além de evidenciar a crescente participação indígena na produção científica sobre seus próprios povos.

Preservação das línguas indígenas e desafios acadêmicos

A pesquisadora Vera Arapium, que atua na coordenação de iniciativas para o fortalecimento das línguas indígenas no Pará, destaca a importância da formação de professores e da produção de materiais didáticos para assegurar a transmissão linguística nas comunidades. A presença crescente de indígenas na universidade tem impacto direto nesse processo, ampliando o protagonismo desses povos na pesquisa e na valorização de suas realidades.

Apesar dos avanços, a permanência dos estudantes indígenas nas universidades ainda enfrenta obstáculos significativos, como a distância dos territórios, dificuldades com o conteúdo acadêmico e questões simbólicas relacionadas ao pertencimento. Dados indicam que menos de 10% dos estudantes indígenas que ingressaram no ensino superior na Amazônia entre 2012 e 2022 conseguiram concluir seus cursos.

Mesmo diante desses desafios, o movimento de pesquisadores indígenas no Pará representa uma importante mudança na forma de produzir conhecimento e contribui para um debate mais amplo sobre a conservação ambiental, a diversidade cultural e o desenvolvimento sustentável na região.