PANORAMA NACIONAL — JORNALISMO DE ANÁLISE E CONTEXTO domingo, 26 de abril de 2026
Internacional

Brasil entre Estados Unidos e China na Estratégia Global de Inteligência Artificial

Em julho de 2025, o governo dos Estados Unidos anunciou um programa estratégico para exportar pacotes completos de inteligência artificial (IA), incluindo hardware, software e normas de governança, com o Brasil listado como um dos mercados prioritários, ao lado de Egito e Indonésia. Essa iniciativa representa um esforço norte-americano para consolidar sua influência tecnológica em países emergentes, diante da crescente presença da China na área.

Paralelamente, o Brasil firmou um memorando de entendimento com a China para aprofundar a cooperação em IA, enquanto mantém negociações avançadas com os Estados Unidos e recebe investimentos significativos em infraestrutura digital, como data centers de grandes empresas americanas. Essa situação ilustra o posicionamento estratégico do país em meio a uma disputa global que envolve não apenas a comercialização de tecnologias, mas também a definição de padrões regulatórios e de segurança digital.

Modelos concorrentes e implicações para o Brasil

Os Estados Unidos adotam uma abordagem que vai além da simples exportação de componentes tecnológicos, buscando estabelecer acordos abrangentes que incluam padrões técnicos, governança e fluxos de dados, como exemplificado pelo acordo com o Japão em 2025. Já a China oferece um modelo integrado, denominado por analistas como “full-stack com condições embutidas”, que combina hardware subsidiado, software proprietário e estruturas regulatórias alinhadas ao seu sistema político.

Para o Brasil, essa dualidade impõe um desafio complexo. A infraestrutura digital do país depende amplamente de servidores e serviços de empresas americanas, sujeitando-se ao CLOUD Act, legislação que permite ao governo dos EUA acessar dados armazenados por seus provedores, independentemente da localização física dos servidores. Isso levanta questões sobre a soberania e a autonomia na gestão de dados e na aplicação de sistemas de IA, que já são amplamente utilizados em setores públicos e privados brasileiros.

Governança e autonomia regulatória

No âmbito legislativo, o Senado brasileiro acompanha o AI Act europeu como referência para a regulamentação nacional da IA, propondo a criação de um sistema de governança sob a Autoridade Nacional de Proteção de Dados. Apesar da intenção de fortalecer a soberania regulatória, a execução prática dessas normas depende da infraestrutura tecnológica controlada por corporações multinacionais, principalmente americanas, evidenciando uma tensão entre o discurso de autonomia e a realidade operacional.

Entretanto, o Brasil possui atributos estratégicos relevantes, como o maior mercado de dados da América Latina, uma matriz energética limpa que favorece a operação de data centers e a experiência em sistemas digitais sofisticados, exemplificada pelo PIX. Esses fatores são determinantes para o interesse tanto dos Estados Unidos quanto da China em estabelecer parcerias tecnológicas com o país.

O debate público brasileiro ainda precisa aprofundar a reflexão sobre os trade-offs envolvidos na adesão a pacotes completos de IA oferecidos por potências estrangeiras, especialmente no que diz respeito à autonomia decisória futura em sistemas que influenciarão políticas públicas, economia e sociedade.