PANORAMA NACIONAL — JORNALISMO DE ANÁLISE E CONTEXTO quarta-feira, 22 de julho de 2026
Brasil

Pesquisa aponta que jovens brasileiros são menos conservadores que gerações anteriores, apesar de maior apoio ao bolsonarismo entre homens jovens

Um levantamento conduzido pela Quaest a pedido do instituto More in Common analisou as posições políticas e sociais da geração Z brasileira, compreendida entre 16 e 24 anos. Os resultados indicam que, apesar de a maioria dos jovens se identificar como conservadora, esses índices são inferiores aos observados nas faixas etárias mais avançadas.

O estudo destaca que os jovens ocupam uma posição intermediária nos debates sobre costumes e direitos sociais. Embora apresentem maior apoio à igualdade de gênero, especialmente no que diz respeito aos direitos das mulheres, há resistência, particularmente entre os homens, a rótulos como feminismo e à aceitação plena de minorias sociais, como travestis e mulheres trans.

Contradições e percepções sobre direitos sociais

O levantamento registrou respostas aparentemente contraditórias, como a aprovação majoritária da adoção por casais gays, simultaneamente acompanhada da concordância com a ideia de que a homossexualidade deva ser vivida de forma reservada. Essa dualidade, segundo a consultora do estudo Helena Vieira, pode refletir uma solidariedade voltada à proteção da infância, mais do que uma aceitação política das causas LGBTQIA+.

Em relação ao feminismo, embora menos de um quarto dos jovens concorde com a afirmação de superioridade masculina, quase metade manifesta opiniões críticas ao movimento, incluindo percepções de que o feminismo promove antagonismo aos homens ou ameaça a estrutura familiar tradicional. Também houve predominância de respostas conservadoras sobre a discussão de identidade de gênero nas escolas, com maioria dos jovens afirmando que o tema confunde crianças e que sexualidade deve ser tratada no âmbito familiar.

Identificação política e bolsonarismo entre jovens

Outro ponto relevante do estudo é a maior identificação dos homens jovens com o bolsonarismo, em comparação com faixas etárias superiores. Aproximadamente 42% dos homens entre 16 e 24 anos afirmaram se identificar com as ideias do ex-presidente Jair Bolsonaro, percentual que diminui progressivamente com a idade.

Apesar do alinhamento ao bolsonarismo, os pesquisadores destacam que isso não implica necessariamente a adesão integral ao conservadorismo tradicional ou a todas as posições do ex-presidente. A votação, segundo Helena Vieira, é resultado de uma composição complexa, onde o conservadorismo funciona como uma gramática política que organiza as preferências no Brasil, muitas vezes mais intensamente do que as divisões entre esquerda e direita.

Metodologia e comparações internacionais

A pesquisa envolveu cerca de 10 mil entrevistas presenciais realizadas entre janeiro e fevereiro de 2025, abrangendo temas relacionados a gênero, sexualidade e política. Essa abordagem presencial, que buscou representar diferentes perfis populacionais, é apontada pelos autores como um diferencial em relação a estudos internacionais que utilizam entrevistas online, as quais podem apresentar viés de seleção e não refletir a diversidade social do país.

Comparações com pesquisas estrangeiras, como a realizada pelo King’s College em parceria com o Ipsos, indicam divergências nos resultados, possivelmente decorrentes das diferenças metodológicas e do perfil dos entrevistados. Os pesquisadores brasileiros ressaltam que fenômenos midiáticos e culturais, como a popularização de comunidades masculinistas na internet e séries televisivas, podem dar uma percepção distorcida da real extensão de determinadas posturas entre os jovens.

Os autores destacam que o estudo não é conclusivo sobre as mudanças de valores ao longo do tempo e que o tema demanda investigações adicionais para compreender se as tendências observadas persistirão ou se as gerações tendem a se tornar mais conservadoras com o envelhecimento.