Durante a primavera paulistana, é comum ouvir o canto do sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris) em horários atípicos, como durante a madrugada. Este fenômeno é objeto de uma pesquisa conduzida pelo Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), com apoio do Instituto Serrapilheira, que busca compreender as causas dessa alteração no comportamento vocal da ave na metrópole.
A professora Ana Paula Assis, responsável pelo estudo, destaca que a iniciativa utiliza a metodologia de ciência cidadã, envolvendo estudantes dos anos finais do ensino fundamental para a coleta de dados. Essa abordagem permite ampliar a abrangência geográfica da pesquisa, já que é inviável para a equipe científica instalar equipamentos em múltiplos pontos da cidade sem a colaboração local.
Contexto e hipóteses da pesquisa
A motivação do projeto surgiu a partir da observação frequente do canto do sabiá-laranjeira após a 1h da manhã, diferentemente do padrão habitual de vocalização ao amanhecer, que serve para comunicação e defesa territorial. A urbanização intensa de São Paulo, com altos níveis de poluição sonora e luminosa, é apontada como fator que pode estar desregulando o relógio biológico da espécie.
Estudos internacionais indicam que aves em ambientes ruidosos ajustam seus horários de canto para evitar interferências, como observado em regiões próximas a aeroportos. No caso paulistano, o barulho constante e a iluminação artificial podem estar eliminando a chamada “janela silenciosa” em que as aves normalmente vocalizam, forçando-as a cantar durante toda a noite para garantir a comunicação com seus parceiros.
Participação das escolas e impacto social
O projeto convida escolas da capital para participar voluntariamente, oferecendo equipamentos sofisticados, como gravadores de som e sonômetros, além de treinamento para os alunos. Estes são responsáveis por instalar os dispositivos, registrar coordenadas geográficas e coletar os dados após a monitorização noturna.
Além do avanço científico, a iniciativa busca promover a aproximação dos jovens com a natureza urbana, despertando interesse pela biodiversidade local e conscientização ambiental. A pesquisadora enfatiza a importância de observar o ambiente natural para valorizá-lo e preservá-lo, especialmente em uma cidade que abriga quase 500 espécies de aves.
Para o próximo ano, a meta é ampliar a rede de monitoramento para pelo menos 30 escolas, fortalecendo a base de dados e o envolvimento comunitário na pesquisa.
