PANORAMA NACIONAL — JORNALISMO DE ANÁLISE E CONTEXTO quarta-feira, 2 de setembro de 2026
Internacional

Narrativa de Onda Anti-Argentina é Questionada por Especialistas e Contextualizada em História e Futebol

Desde sua posse em dezembro de 2023, o presidente argentino Javier Milei adotou a frase “Vamos a hacer grande a la Argentina otra vez”, evocando um período em que o país detinha uma posição econômica superior na América Latina. Esse discurso tem sido acompanhado da afirmação de que existe uma onda global anti-Argentina, uma narrativa que, segundo especialistas, carece de fundamentação e é utilizada para desviar a atenção dos desafios internos enfrentados pelo governo.

O economista Fabio Giambiagi, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas, classifica a ideia de uma onda anti-Argentina como infundada, destacando que as redes digitais apenas amplificam uma narrativa construída por setores políticos para obter vantagens. O sociólogo Rogério Baptistini, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, complementa que essa estratégia de criar inimigos externos é comum em governos de extrema-direita, servindo para capitalizar ressentimentos em meio a dificuldades sociais e econômicas.

Impacto da Copa do Mundo e o Discurso Nacional

O contexto esportivo recente, especialmente a Copa do Mundo de 2026, contribuiu para alimentar essa percepção. A seleção argentina, liderada por Lionel Messi, conquistou o vice-campeonato após uma final contra a Espanha marcada por controvérsias e atitudes consideradas anti-esportivas por parte de alguns jogadores argentinos. Segundo Giambiagi, isso prejudicou a imagem do país, que vinha conquistando simpatia pelo desempenho durante o torneio e pela despedida de Messi.

Além das reações imediatas, teorias conspiratórias ganharam espaço nas redes sociais, alimentando um clima de “nós contra eles” e isolando a Argentina nas discussões entre torcedores. Enquanto algumas alegações sugeriam favorecimento da arbitragem à Argentina, outras afirmavam que o país teria entregado a partida, ambas consideradas improcedentes por especialistas.

Contexto Histórico e Identidade Nacional

A narrativa de superioridade argentina tem raízes históricas profundas, vinculadas ao período de crescimento econômico e industrialização do início do século 20, quando a Argentina apresentava indicadores superiores aos de várias nações europeias e latino-americanas. Essa fase contribuiu para a construção de uma identidade nacional associada a uma imagem europeia e a uma sensação de hegemonia regional, especialmente em relação ao Brasil e outros países sul-americanos.

Essa percepção histórica também está relacionada a estereótipos culturais e sociais, incluindo questões de raça e classe, que influenciam as relações bilaterais e a autopercepção do país. A historiadora Érica Cristina Alexandre Winand e o sociólogo Baptistini destacam que esses elementos fazem parte de um legado complexo que ainda permeia o cenário político e social argentino.

Giambiagi ressalta que, apesar de episódios isolados de atitudes racistas por parte de alguns indivíduos, não é possível generalizar tais comportamentos como características nacionais. Ele aponta que o racismo é uma aberração e que a maioria da população argentina não compartilha dessas atitudes.

Em síntese, a suposta onda anti-Argentina apresentada pelo presidente Milei é vista por especialistas como uma construção política e social, influenciada por eventos esportivos recentes e por uma história que molda a identidade do país. A complexidade dos desafios internos argentinos e a dinâmica das redes sociais desempenham papel central na amplificação dessa narrativa.