PANORAMA NACIONAL — JORNALISMO DE ANÁLISE E CONTEXTO segunda-feira, 19 de outubro de 2026
Brasil

Warwick Estevam Kerr e a Introdução das Abelhas Africanizadas no Brasil: Impactos e Legado na Apicultura Nacional

Warwick Estevam Kerr, engenheiro agrônomo, geneticista e entomologista, é reconhecido por sua contribuição fundamental à ciência brasileira, especialmente na área da apicultura. Ao longo de sua carreira, atuou em diversas universidades nacionais e internacionais, além de ocupar cargos de destaque como diretor científico da FAPESP e diretor do Instituto de Pesquisas da Amazônia (INPA).

Em 1957, Kerr foi protagonista de um episódio que marcou a história da apicultura no Brasil: a introdução das abelhas africanas, conhecidas popularmente como abelhas “assassinas”. O objetivo inicial era aprimorar a produtividade e a resistência das abelhas europeias, que haviam sido introduzidas no país no século XIX, mas tinham adaptação limitada fora do Sul e Sudeste.

O acidente e a disseminação das abelhas africanizadas

Após retornar de uma missão de estudo na África em 1956, Kerr trouxe para o Brasil 51 rainhas da espécie Apis mellifera scutellata, altamente produtiva porém com comportamento defensivo mais acentuado. Essas rainhas foram mantidas em quarentena na Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Rio Claro, com telas protetoras para evitar sua fuga. Contudo, a remoção inadvertida dessas telas por um funcionário permitiu que 26 rainhas escapassem e cruzassem com abelhas europeias, originando as abelhas africanizadas.

Essas abelhas se espalharam rapidamente pelo território nacional, apresentando comportamento defensivo intenso, o que gerou inicialmente dificuldades para os apicultores e causou aumento nos acidentes com pessoas e animais. A falta de conhecimento técnico e equipamentos apropriados levou muitos produtores a abandonar a atividade, alimentando o mito das “abelhas assassinas”.

Desafios e avanços na apicultura brasileira

Com o tempo, pesquisadores desenvolveram técnicas específicas para manejo das abelhas africanizadas, como o uso de equipamentos de proteção adequados, localização estratégica dos apiários e seleção genética para reduzir a agressividade. Entre 1965 e 1970, houve uma significativa diminuição da agressividade das colônias, o que permitiu a retomada e expansão da atividade apícola no país.

Além disso, as abelhas africanizadas demonstraram maior resistência a parasitas como o ácaro Varroa destructor e maior produtividade de mel e própolis, consolidando o Brasil como um dos principais produtores e exportadores globais desses produtos. O trabalho pioneiro de Kerr e sua equipe foi fundamental para essa transformação.

Legado e reconhecimento

Apesar das dificuldades iniciais e da associação negativa com as abelhas africanizadas, a trajetória de Warwick Estevam Kerr é marcada por importantes contribuições à ciência e à formação de pesquisadores no Brasil. Seu trabalho também abrangeu estudos sobre abelhas sem ferrão, especialmente na região Norte do país.

Kerr faleceu em 2018, aos 96 anos, deixando um legado que ultrapassa a controvérsia inicial. Sua iniciativa, mesmo acidental, provocou uma revolução na apicultura nacional, beneficiando a produção agrícola e o desenvolvimento científico no Brasil.