PANORAMA NACIONAL — JORNALISMO DE ANÁLISE E CONTEXTO quarta-feira, 21 de outubro de 2026
Brasil

Projeto escolar na Bahia estimula iniciação científica a partir de experiência cotidiana

Em uma escola pública de Guanambi, no sudoeste da Bahia, duas estudantes do ensino médio transformaram uma experiência pessoal em um projeto de iniciação científica. Valéria Pereira e Eduarda Diamantino, alunas do Colégio Estadual Governador Luiz Viana Filho, desenvolveram um creme experimental à base de tomate-cereja para o tratamento de acne, a partir de uma sugestão caseira da avó de Valéria.

O projeto teve início em 2024, quando as alunas, recém-chegadas à rede pública estadual, foram incentivadas pela professora de Biologia, Elizângela Souza Vieira, a partir de problemas do cotidiano para formular projetos de pesquisa para a feira de ciências da escola. A proposta da docente foi fundamental para que a atividade escolar ultrapassasse o caráter meramente avaliativo e se tornasse uma experiência de investigação científica.

Com orientação da professora, as estudantes realizaram uma revisão bibliográfica sobre as propriedades do tomate-cereja, especialmente o licopeno, e desenvolveram uma fórmula experimental combinando o fruto com glicerina. Seis voluntários participaram dos testes durante aproximadamente um mês, com relatos de redução na oleosidade e nas lesões de acne. No entanto, as alunas e a docente destacam que os resultados não são conclusivos, uma vez que o projeto é preliminar e não substitui estudos científicos mais rigorosos.

O processo envolveu pesquisa, organização e registro das etapas, além de acompanhamento dos testes, evidenciando a importância de compreender que observações do cotidiano precisam ser validadas por métodos científicos. A professora Elizângela enfatiza que essa prática representa uma nova abordagem educacional, especialmente em escolas do interior, que amplia as oportunidades de aprendizagem e desenvolvimento dos estudantes.

Apesar do projeto não ter sido selecionado para a Feira de Ciências, Empreendedorismo e Inovação da Bahia (FECIBA), a experiência contribuiu para a formação acadêmica das alunas, que hoje planejam seguir carreiras na área de estética e odontologia. A iniciativa também ressalta os desafios enfrentados na educação pública, como a escassez de recursos materiais e o acúmulo de demandas para os professores.

Em âmbito federal, programas como o de Iniciação Científica Júnior (ICJ) do CNPq e o Mais Ciência na Escola, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação em parceria com o Ministério da Educação, buscam fomentar a educação científica nas redes públicas. Na Bahia, o secretário estadual de Educação, Marcius Gomes, aponta o protagonismo do estado em iniciativas que envolvem mais de 2.000 trabalhos científicos ligados às realidades locais das escolas.

Essa experiência de Guanambi exemplifica como a iniciação científica na educação básica pode ser impulsionada a partir de questionamentos cotidianos e do estímulo ao método científico, independentemente da infraestrutura disponível. O desenvolvimento do pensamento crítico e investigativo, aliado ao apoio docente, é essencial para ampliar o acesso dos estudantes à ciência e tecnologia desde os primeiros anos escolares.