Em uma escola pública de Guanambi, no sudoeste da Bahia, duas estudantes do ensino médio transformaram uma experiência pessoal em um projeto de iniciação científica. Valéria Pereira e Eduarda Diamantino, alunas do Colégio Estadual Governador Luiz Viana Filho, desenvolveram um creme experimental à base de tomate-cereja para o tratamento de acne, a partir de uma sugestão caseira da avó de Valéria.
O projeto teve início em 2024, quando as alunas, recém-chegadas à rede pública estadual, foram incentivadas pela professora de Biologia, Elizângela Souza Vieira, a partir de problemas do cotidiano para formular projetos de pesquisa para a feira de ciências da escola. A proposta da docente foi fundamental para que a atividade escolar ultrapassasse o caráter meramente avaliativo e se tornasse uma experiência de investigação científica.
Com orientação da professora, as estudantes realizaram uma revisão bibliográfica sobre as propriedades do tomate-cereja, especialmente o licopeno, e desenvolveram uma fórmula experimental combinando o fruto com glicerina. Seis voluntários participaram dos testes durante aproximadamente um mês, com relatos de redução na oleosidade e nas lesões de acne. No entanto, as alunas e a docente destacam que os resultados não são conclusivos, uma vez que o projeto é preliminar e não substitui estudos científicos mais rigorosos.
O processo envolveu pesquisa, organização e registro das etapas, além de acompanhamento dos testes, evidenciando a importância de compreender que observações do cotidiano precisam ser validadas por métodos científicos. A professora Elizângela enfatiza que essa prática representa uma nova abordagem educacional, especialmente em escolas do interior, que amplia as oportunidades de aprendizagem e desenvolvimento dos estudantes.
Apesar do projeto não ter sido selecionado para a Feira de Ciências, Empreendedorismo e Inovação da Bahia (FECIBA), a experiência contribuiu para a formação acadêmica das alunas, que hoje planejam seguir carreiras na área de estética e odontologia. A iniciativa também ressalta os desafios enfrentados na educação pública, como a escassez de recursos materiais e o acúmulo de demandas para os professores.
Em âmbito federal, programas como o de Iniciação Científica Júnior (ICJ) do CNPq e o Mais Ciência na Escola, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação em parceria com o Ministério da Educação, buscam fomentar a educação científica nas redes públicas. Na Bahia, o secretário estadual de Educação, Marcius Gomes, aponta o protagonismo do estado em iniciativas que envolvem mais de 2.000 trabalhos científicos ligados às realidades locais das escolas.
Essa experiência de Guanambi exemplifica como a iniciação científica na educação básica pode ser impulsionada a partir de questionamentos cotidianos e do estímulo ao método científico, independentemente da infraestrutura disponível. O desenvolvimento do pensamento crítico e investigativo, aliado ao apoio docente, é essencial para ampliar o acesso dos estudantes à ciência e tecnologia desde os primeiros anos escolares.
