Milhares de pessoas participaram de protestos no centro de Madri após o despejo de María del Carmen Abascal, uma idosa de 87 anos que residia em um apartamento alugado há mais de sete décadas. O episódio evidenciou a gravidade da crise habitacional na Espanha, especialmente nas grandes cidades, onde os preços de imóveis e aluguéis têm atingido valores proibitivos para boa parte da população.
Segundo dados oficiais, cerca de 25 mil manifestantes estiveram presentes na capital no último sábado, e aproximadamente 500 pessoas acamparam na praça Puerta del Sol, local estratégico em frente ao governo regional de Madri. Os participantes reivindicam reformas na legislação de aluguéis e despejos, incluindo contratos por prazo indeterminado, congelamento dos preços dos aluguéis e proteção contra despejos sem oferta de moradia alternativa.
Contexto Econômico e Social
O aumento expressivo dos preços imobiliários tem sido acompanhado por uma oferta insuficiente de moradias. Entre 2021 e 2025, foram construídas 750 mil unidades residenciais a menos do que o necessário para suprir a demanda, conforme dados do Banco da Espanha. No segundo trimestre de 2026, os preços subiram 12,2% em relação ao ano anterior, com destaque para a Comunidade de Madri, que registrou alta de 12,9%.
O Sindicato dos Inquilinos de Madri tem sido uma das principais vozes nas mobilizações, defendendo a proibição da aquisição de imóveis por investidores que não residam neles, além da expropriação de propriedades pertencentes a fundos imobiliários, conhecidos como “fundos abutres”. A organização também apoia medidas para garantir maior estabilidade aos inquilinos e combater práticas especulativas.
Reações e Perspectivas Políticas
O governo espanhol, liderado por Pedro Sánchez, anunciou a elaboração de um decreto sobre moradia para ser discutido no Conselho de Ministros, com o objetivo de atender parte das demandas dos manifestantes. Sánchez, que governa em minoria, solicitou apoio de outras forças parlamentares para a aprovação da medida, que ainda está em fase de negociação.
Enquanto o partido governista e seus aliados demonstram apoio às reivindicações, o principal partido de oposição, Partido Popular, apresentou propostas alternativas que incluem a eliminação das zonas com limitação de aluguéis e incentivos para facilitar a aquisição de imóveis por jovens. A Prefeitura de Madri, também sob administração do PP, criticou os protestos e cobrou uma retomada da normalidade no entorno da Puerta del Sol.
Além de Madri, outras cidades espanholas como Barcelona, Alicante e Santiago de Compostela registraram manifestações relacionadas à crise habitacional, indicando a amplitude do problema em todo o país.
