Vini Jr., atleta brasileiro radicado em Madrid desde 2018, tem chamado a atenção pela maneira peculiar com que finaliza suas falas em entrevistas, dando a impressão de que suas frases não chegam a um encerramento definitivo. Esse fenômeno tem sido objeto de análise por especialistas em linguística, que atribuem a característica a um processo conhecido como atrito linguístico.
O que é o atrito linguístico e como afeta Vini Jr.
O atrito linguístico ocorre quando o uso frequente de uma segunda língua interfere na estrutura e prosódia da língua materna. No caso de Vini Jr., a influência do espanhol falado em Madrid tem alterado o ritmo e a melodia de sua fala em português, especialmente no que diz respeito à entoação.
Maristela Pinto, professora-doutora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, explica que essa alteração está no nível prosódico, que envolve o ritmo, a velocidade, a intenção e a melodia da fala. Essa mudança faz com que frases afirmativas em português terminem com a entonação típica de perguntas do espanhol madrilenho.
Diferenças entre entonação no português brasileiro e no espanhol madrilenho
Na língua portuguesa do Brasil, perguntas de sim ou não geralmente terminam com uma entonação descendente, indicando uma conclusão da frase. Por exemplo, a frase “Você que fez esse bolo?” apresenta uma queda de tom na última sílaba.
Já no espanhol falado em Madrid, a entonação dessas perguntas é ascendente, com a voz subindo na parte final da frase, o que sinaliza a interrogatividade. Essa dinâmica é essencial para a compreensão do interlocutor na Espanha.
Segundo Adriana María Ramos Oliveira, professora do Instituto Cervantes, aplicar a entonação portuguesa descendente em Madrid pode causar falta de compreensão, pois os ouvintes não reconheceriam a frase como uma pergunta.
Como essa característica se manifesta na fala de Vini Jr.
Vini Jr. vai além do simples atrito linguístico, pois utiliza a entonação ascendente típica do espanhol em praticamente todas as suas frases afirmativas em português. Essa particularidade gera a impressão de que suas falas não apresentam um ponto-final claro, o que tem sido descrito de forma coloquial como ser “inimigo do ponto-final”.
Apesar da estranheza percebida, esse comportamento é compreensível diante do desafio de conviver e utilizar diariamente duas línguas com características fonéticas e prosódicas distintas.
