A partir de 22 de julho, o Brasil passa a ter a maior tarifa média aplicada pelos Estados Unidos entre os países da América do Sul, conforme dados do Global Trade Alert (GTA), centro independente de monitoramento do comércio global. Com a atualização das taxas, a tarifa média de importação para produtos brasileiros alcança 18,17%, superando as aplicadas a outras nações vizinhas, que permanecem em patamares inferiores.
Este índice considera o peso específico de cada produto na pauta exportadora brasileira e as exceções previstas na nova regulamentação, diferindo da alíquota nominal de 25% anunciada pela administração Trump. A tarifa média vigorará até 26 de julho, quando expira uma taxa temporária de 10% prevista na Seção 122 da Lei de Comércio dos EUA, e deve ser reduzida para 14,42% em seguida.
Entretanto, o governo americano já sinalizou a intenção de estabelecer novas tarifas adicionais, possivelmente entre 10% e 12,5%, que afetariam múltiplos países, incluindo o Brasil. Especialistas apontam que a elevação das tarifas contra o Brasil se relaciona a fatores políticos, econômicos, estratégicos e diplomáticos, inseridos no contexto da política comercial nacionalista adotada pelos Estados Unidos.
Dimensões da política tarifária
Para Carlos Pio, ex-secretário executivo da Câmara de Comércio Exterior e professor da UnB, a medida reflete uma mudança na doutrina comercial americana, que prioriza a proteção de setores industriais internos e a formação de alianças políticas, em detrimento de protocolos tradicionais. O Brasil é visto como alvo preferencial não apenas por sua economia relativamente protegida, mas também pelo desalinhamento ideológico com a atual administração dos EUA, especialmente em razão da relação pessoal entre os governos brasileiros e o ex-presidente Trump.
Outro aspecto relevante é a posição estratégica do Brasil na competição global entre Estados Unidos e China. Jan Marcel, professor da UFRN, destaca que a relevância comercial do Brasil para os EUA, em especial pela exportação de produtos de maior valor agregado, e sua forte relação econômica com a China, colocam o país no centro de uma disputa geopolítica, tornando as tarifas um instrumento de pressão que ultrapassa o âmbito comercial.
Celso Figueiredo, especialista em comércio internacional e professor da FGV, acrescenta que essas tarifas se tornaram ferramentas políticas e fiscais dentro da estratégia “America First”, visando aumentar a competitividade dos produtos americanos e a arrecadação do governo. No caso brasileiro, ele identifica motivações políticas evidentes, já que a fundamentação técnica para as medidas é considerada superficial.
Perspectivas para a relação bilateral
O governo brasileiro manifestou descontentamento, classificando as tarifas como um marco negativo na relação com os Estados Unidos, ressaltando que a balança comercial favorece os americanos. Por outro lado, autoridades americanas indicam que eventuais retaliações brasileiras poderiam levar a ajustes na política tarifária dos EUA, com possibilidade de novas ações.
Apesar do cenário tenso, especialistas avaliam que uma escalada significativa é improvável no curto prazo. A Lei de Reciprocidade, que permitiria retaliações mais duras, permanece sem aplicação efetiva. Além disso, a existência de uma lista de exceções tarifárias deve proteger parte das exportações brasileiras, reduzindo a pressão para respostas mais contundentes. A expectativa é que as negociações diplomáticas continuem sendo o principal canal para resolução das divergências comerciais.
