PANORAMA NACIONAL — JORNALISMO DE ANÁLISE E CONTEXTO quarta-feira, 2 de setembro de 2026
Brasil

Warwick Estevam Kerr e a Transformação da Apicultura Brasileira a Partir da Introdução das Abelhas Africanizadas

Warwick Estevam Kerr, engenheiro agrônomo, geneticista e entomologista brasileiro, teve uma trajetória marcada por contribuições significativas à ciência nacional, incluindo a fundação de departamentos acadêmicos e a formação de diversas gerações de pesquisadores. Sua carreira, que abrangeu instituições importantes como a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Estadual Paulista (Unesp), a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), também foi marcada por um episódio que o tornou uma figura controversa: a introdução acidental das abelhas africanizadas no Brasil em 1957.

O episódio ocorreu após Kerr retornar de uma viagem à África, onde estudou a produção de mel e buscava aprimorar a apicultura brasileira. Ele trouxe ao país 51 rainhas da espécie Apis mellifera scutellata, originárias da África do Sul e da Tanzânia, com o objetivo de cruzá-las com abelhas europeias para aumentar a produtividade e a resistência das colmeias. Apesar das precauções adotadas, um descuido na manipulação das colmeias permitiu a fuga de 26 rainhas, que cruzaram com abelhas locais, dando origem às abelhas africanizadas.

Essas abelhas, conhecidas popularmente como “abelhas assassinas” devido à sua agressividade defensiva, se espalharam rapidamente pelo Brasil e posteriormente por outras regiões das Américas. O comportamento defensivo e a maior sensibilidade a estímulos provocaram dificuldades iniciais para os apicultores, que muitas vezes abandonaram a atividade por falta de equipamentos e conhecimento técnico adequados. A repercussão midiática reforçou a imagem negativa dessas abelhas, embora especialistas esclareçam que seus ataques são respostas de proteção à colônia.

Impactos e avanços na apicultura brasileira

Apesar dos desafios iniciais, a introdução das abelhas africanizadas impulsionou avanços importantes na apicultura nacional. Pesquisadores desenvolveram técnicas específicas de manejo, incluindo o uso de equipamentos de proteção, adequação do posicionamento dos apiários e seleção genética para reduzir a agressividade das abelhas. A partir da década de 1960, esforços para cruzar as abelhas africanizadas com rainhas italianas mais dóceis resultaram em colônias produtivas e menos agressivas.

Atualmente, o Brasil é um dos maiores produtores e exportadores mundiais de mel e própolis, resultado dos avanços científicos e adaptações promovidas no setor. Especialistas reconhecem que, embora o acidente inicial tenha gerado problemas, a iniciativa de Kerr contribuiu para a consolidação e expansão da apicultura no país.

Legado científico e reconhecimento

Além de seu impacto na apicultura, Kerr teve uma atuação destacada na ciência brasileira, presidindo a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e enfrentando desafios políticos durante o regime militar. Sua dedicação à pesquisa e à formação acadêmica foi reconhecida por colegas e especialistas, que ressaltam sua importância para o desenvolvimento científico em diversas regiões do Brasil.

Warwick Estevam Kerr faleceu em 2018, aos 96 anos. Sua trajetória, marcada por conquistas e controvérsias, permanece como referência para a apicultura e a genética no país, evidenciando a complexidade e o impacto das decisões científicas no contexto socioeconômico nacional.