PANORAMA NACIONAL — JORNALISMO DE ANÁLISE E CONTEXTO domingo, 30 de agosto de 2026
Brasil

Cesp reintegra mutuns-de-penacho à natureza após duas décadas de preservação em cativeiro

A Companhia Energética de São Paulo (Cesp), subsidiária da Auren Energia, está finalizando a soltura de 40 aves da espécie mutum-de-penacho (Crax fasciolata) na área de influência da Usina Hidrelétrica Engenheiro Sérgio Motta, localizada no Rio Paraná, distrito de Porto Primavera, município de Rosana (SP). Esta iniciativa integra o projeto de Soltura do Mutum-de-Penacho, que visa à preservação da espécie na região.

Os indivíduos liberados são descendentes de aproximadamente 140 aves resgatadas há cerca de 20 anos durante a construção do reservatório da usina. Na época, a maioria das aves foi reintroduzida na natureza ou encaminhada a zoológicos e centros de conservação, enquanto cerca de 40 exemplares foram destinados ao Centro de Conservação de Aves Silvestres (CCAS) da Usina Hidrelétrica de Paraibuna (SP), onde permaneceram sob reprodução controlada e acompanhamento técnico especializado.

O gerente de Sustentabilidade e Operações da Cesp, André Rocha, destacou o compromisso da empresa com a conservação ambiental, ressaltando que a proteção da fauna e flora locais é parte integrante das atividades da companhia. Além da soltura do mutum-de-penacho, a Cesp desenvolve ações de manejo em unidades de conservação, proteção de áreas de preservação permanente e reflorestamento, com foco na criação de corredores ecológicos para a fauna silvestre.

Processo de soltura e monitoramento

O retorno das aves à natureza foi planejado em duas etapas para garantir a adaptação dos animais. A primeira fase, iniciada em outubro, consistiu na transferência de 20 aves do CCAS Paraibuna para duas áreas de soltura e manejo da Cesp: a Fazenda Cisalpina, em Brasilândia (MS), e a Foz do Rio Aguapeí, em Castilho (SP). Nesses locais, viveiros com dimensões similares aos do CCAS foram construídos para facilitar a adaptação gradual dos mutuns.

O processo envolveu avaliações médicas, treinamentos comportamentais e transporte especializado para minimizar o estresse dos animais. Após período de quarentena, a soltura branda teve início em novembro, com as portas dos viveiros abertas e a alimentação dos mutuns sendo gradualmente condicionada ao ambiente natural. Equipamentos radiotransmissores foram instalados nos animais para acompanhamento contínuo da equipe técnica composta por biólogos e veterinários.

Importância ecológica e desafios da conservação

O mutum-de-penacho é uma espécie considerada criticamente ameaçada em várias regiões do Brasil, especialmente no Sudeste, onde sofre com a redução populacional, caça predatória e ataques de animais domésticos. Segundo o professor Sérgio Posso, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e coordenador do projeto, a reintrodução desses indivíduos contribui para ampliar a diversidade genética e fortalecer a população local, reduzindo riscos de endogamia e extinção.

Além de sua beleza, o mutum desempenha papel essencial na dispersão de sementes e no equilíbrio dos ecossistemas. Como espécie terrestre que se alimenta de sementes e pequenos insetos, sua presença favorece o reflorestamento natural e a manutenção da biodiversidade regional.

O projeto da Cesp exemplifica um modelo de conservação integrada, combinando esforços técnicos e estratégicos para garantir a proteção e o retorno sustentável de uma ave símbolo para os biomas da região.