PANORAMA NACIONAL — JORNALISMO DE ANÁLISE E CONTEXTO segunda-feira, 27 de julho de 2026
Brasil

Desigualdades sociais impactam a saúde e a longevidade da população negra

As diferenças estruturais em renda, escolaridade, acesso a serviços de saúde e condições sociais influenciam diretamente o envelhecimento da população negra, resultando em quadros de saúde mais vulneráveis e maior risco de mortalidade precoce. O Dia Mundial de Conscientização sobre a Violência contra a Pessoa Idosa destaca a urgência do tema, especialmente em relação às desigualdades raciais que se manifestam desde a juventude e se agravam na velhice.

Condições de vida e saúde da população negra idosa

Pesquisa realizada em 2021 pelo epidemiologista Roudom Ferreira Moura, da USP, revelou que idosos negros na cidade de São Paulo apresentam piores indicadores socioeconômicos e de saúde em comparação aos idosos brancos. Entre as deficiências identificadas estão menor renda, escolaridade inferior, maior prevalência de hipertensão e menor acesso a planos de saúde privados. Além disso, quase metade dos idosos pretos e pardos avalia sua saúde como regular, ruim ou muito ruim, percentual significativamente maior que o observado entre os brancos.

Impactos do racismo estrutural na saúde nos Estados Unidos

Dados recentes da Associated Press, coletados em 2022, evidenciam que afrodescendentes nos Estados Unidos enfrentam desafios de saúde mais graves em diversos indicadores, como mortalidade materna e infantil, transtornos mentais e doenças crônicas. Por exemplo, a incidência de nascimento prematuro entre bebês negros foi a mais elevada entre todos os grupos étnicos em 2021, e a exposição a traumas raciais frequentes tem relação direta com altos índices de depressão entre jovens negros.

A prevalência da doença de Alzheimer também é maior entre afro-americanos idosos, com 14% dos negros acima de 65 anos diagnosticados, contra 10% dos brancos, e a hipertensão atinge cerca de 75% dessa população aos 55 anos. Essas disparidades são agravadas por um histórico de práticas médicas discriminatórias, como evidenciado no século XIX por procedimentos realizados sem anestesia em mulheres negras escravizadas, perpetuando crenças equivocadas sobre a resistência à dor.

Determinantes sociais como fator chave para reduzir desigualdades

Um estudo da Tulane University demonstrou que o risco de morte prematura entre negros nos EUA é 59% maior do que entre brancos, mas essa diferença desaparece quando se eliminam os chamados determinantes sociais da saúde: renda, emprego, segurança alimentar, escolaridade, acesso e qualidade do atendimento médico, posse da casa e estado civil. A pesquisa revela que a presença de apenas um fator desfavorável dobra o risco de mortalidade precoce, enquanto seis ou mais aumentam esse risco em até oito vezes.

O epidemiologista Josh Bundy, principal autor do estudo, destaca que essas áreas devem ser prioritárias para políticas públicas que visem eliminar as disparidades raciais em saúde, promovendo um envelhecimento mais digno e saudável para a população negra.