A crescente utilização de deepfakes — vídeos, imagens e áudios gerados por inteligência artificial (IA) que simulam conteúdos reais — tem provocado preocupações significativas no âmbito das eleições ao redor do mundo. Embora ainda não haja evidências conclusivas de que essas tecnologias tenham alterado diretamente resultados eleitorais, seu uso tem impactado a confiança pública e a estabilidade política.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) do Brasil enfrenta desafios para regulamentar o uso da IA nas campanhas eleitorais, exemplificado pelo adiamento de uma reunião que discutiria possíveis punições relacionadas ao uso de vídeos produzidos por IA, como o caso envolvendo a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL).
Casos internacionais e seus desdobramentos
Na Irlanda, em 2025, um vídeo falso divulgado dias antes da eleição presidencial simulava a desistência da então candidata Catherine Connolly, utilizando uma transmissão falsa da principal emissora nacional. Apesar da manipulação, a candidata foi eleita com ampla maioria, mas o episódio evidenciou a capacidade dos deepfakes de explorar a credibilidade de instituições para disseminar desinformação.
No Equador, também em 2025, diversas produções falsas imitando canais internacionais de notícias foram utilizadas para difamar candidatos e disseminar informações falsas sobre fraudes e escândalos, afetando a percepção pública e contribuindo para um ambiente de desconfiança generalizada, sobretudo em contextos com baixa alfabetização midiática.
Na Alemanha, vídeos manipulados alertavam falsamente sobre ameaças terroristas durante as eleições parlamentares, usando imagens reais combinadas com narrações geradas por IA. Essas ações foram atribuídas a redes de desinformação estrangeiras e tiveram como efeito desencorajar a participação eleitoral e gerar pânico social.
Manipulação e instabilidade política
Na Eslováquia, em 2023, um áudio falso atribuído a um candidato influenciou o clima político às vésperas da eleição parlamentar, em um período de silêncio eleitoral que dificultou sua contestação rápida. Embora não haja comprovação direta de alteração no resultado, o caso ilustra a vulnerabilidade dos processos eleitorais a essas tecnologias.
Além dos impactos políticos diretos, deepfakes também têm sido empregados para golpes financeiros, como ocorrido na Romênia, onde vídeos falsos de candidatos presidenciais promoveram esquemas fraudulentos durante o período eleitoral, ampliando riscos para o eleitorado.
No Paquistão, a utilização de vídeos gerados por IA em campanhas políticas durante a prisão do ex-primeiro-ministro Imran Khan contribuiu para um ambiente de tensão e controvérsia após as eleições parlamentares de 2024, evidenciando o potencial das tecnologias para alimentar instabilidade e protestos.
Especialistas destacam que o principal desafio da disseminação de deepfakes não reside apenas na manipulação dos votos, mas sobretudo na erosão da confiança nas instituições democráticas, na mídia e na própria realidade informacional, agravando a polarização e dificultando o debate público qualificado.
