PANORAMA NACIONAL — JORNALISMO DE ANÁLISE E CONTEXTO quarta-feira, 3 de junho de 2026
Política

Levantamento identifica 18 influenciadores políticos digitais criados por inteligência artificial no Brasil

Um estudo conduzido pelo Observatório das Eleições, em parceria com as organizações Data Privacy Brasil e Aláfia Lab, identificou 18 perfis de influenciadores políticos virtuais criados por inteligência artificial (IA) que atuam nas redes sociais brasileiras entre janeiro de 2025 e abril de 2026.

Segundo o levantamento, 61% desses avatares não apresentam qualquer indicação clara de que seu conteúdo é produzido artificialmente, contrariando as determinações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que exigem avisos explícitos e visíveis sobre o uso de IA em materiais eleitorais. A identificação da origem sintética desses perfis só foi possível mediante análise técnica detalhada, incluindo aspectos como resolução, proporção e características robóticas em áudio e vídeo.

Perfis e plataformas

Os personagens virtuais atuam como eleitores, comentaristas e influenciadores, e suas publicações circulam principalmente no TikTok e Instagram, com seis casos em cada plataforma, seguidos pelo YouTube, X, Kwai e Facebook. Entre os perfis mais conhecidos estão “Dona Maria”, uma personagem representada como uma senhora negra idosa que faz críticas ao governo federal, e “Seu Zé da Feira”, que se posiciona contra políticos de direita.

O estudo revela que 78% dos conteúdos veiculados por esses avatares continham informações falsas ou enganosas relacionadas a figuras políticas e instituições democráticas, destacando o potencial uso dessas criações digitais como instrumentos de desinformação política.

Repercussões e respostas

O perfil “Dona Maria” gerou grande repercussão, com mais de 400 vídeos publicados, motivando ações judiciais no TSE por parte de partidos como PT, PV e PCdoB, que solicitam a suspensão dos perfis associados. Em resposta, perfis alinhados ao governo federal criaram versões alternativas da personagem, mantendo sua aparência, mas com discursos favoráveis ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Da mesma forma, “Seu Zé da Feira” tornou-se popular entre usuários progressistas, adotando discursos contrários a políticos de direita, com publicações que exibem marcas d’água e sinalizações de conteúdo sintético, conforme normas das plataformas.

Esses casos ilustram um desafio emergente para o ambiente informacional brasileiro, que passa a lidar com perfis inteiramente fabricados para influenciar o debate público e simular opiniões espontâneas, exigindo maior atenção às normas de transparência e combate à desinformação nas redes sociais.