PANORAMA NACIONAL — JORNALISMO DE ANÁLISE E CONTEXTO terça-feira, 28 de julho de 2026
Brasil

Desafios e perspectivas no tratamento da dor crônica no Brasil e no mundo

A dor crônica é uma condição que acomete uma parcela significativa da população mundial. Nos Estados Unidos, mais de 50 milhões de pessoas convivem com esse problema, conforme dados recentes do Center for Disease Control and Prevention (CDC), número que não inclui residentes de instituições de longa permanência. No Brasil, a Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor estima que cerca de 60 milhões de brasileiros, o equivalente a 37% da população, enfrentam dores persistentes por períodos superiores a três meses.

Entre os casos mais graves está a chamada dor de alto impacto, que compromete atividades diárias e pode gerar consequências como depressão, dependência de substâncias e até risco de suicídio. No contexto do envelhecimento, a dor é frequentemente subestimada, sendo considerada um sintoma normal, o que compromete a qualidade de vida dos idosos.

Complexidade do tratamento e multidimensionalidade da dor

O cenário é ainda mais preocupante para pacientes oncológicos, com 60% a 80% deles relatando dor associada à doença. Embora 90% das dores relacionadas ao câncer sejam tratáveis, a realidade mostra que o controle efetivo ainda é insuficiente. Segundo a médica Eloá Soffritti, integrante da clínica de dor do Hospital Copa D’Or, o manejo da dor deve considerar a teoria da dor total, desenvolvida pela médica britânica Cicely Saunders. Essa abordagem reconhece que a dor não é apenas física, mas também envolve aspectos psicológicos, sociais e espirituais, como perda do emprego, dificuldades financeiras e questionamentos existenciais.

Para Soffritti, o tratamento deve contemplar essas dimensões de forma integrada. No entanto, fatores como a falta de capacitação dos profissionais de saúde, o acesso restrito a tratamentos multidisciplinares e a chamada opiofobia — receio do uso de analgésicos opioides devido ao risco de dependência — limitam a efetividade do controle da dor.

Perspectivas para um cuidado integrativo

O receio relacionado aos opioides aumentou após a crise desses medicamentos nos Estados Unidos, mas especialistas alertam que a dor não tratada pode agravar o quadro clínico do paciente. A enfermeira Katharine Kolcaba, criadora da Teoria do Conforto, destaca que o bem-estar do paciente depende da atuação conjunta de diversos profissionais, incluindo médicos, enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas e assistentes sociais. Essa abordagem colaborativa favorece a imunidade, a reabilitação e a adesão ao tratamento.

Reconhecendo a importância desse modelo, a International Association for the Study of Pain (IASP) declarou 2023 como o ano global para o cuidado integrativo da dor, enfatizando o papel do autocuidado e das terapias não medicamentosas. Diante desse panorama, é fundamental que pacientes e profissionais busquem estratégias que transcendam o tratamento exclusivamente medicamentoso para garantir uma melhor qualidade de vida.