PANORAMA NACIONAL — JORNALISMO DE ANÁLISE E CONTEXTO quinta-feira, 3 de setembro de 2026
Brasil

Warwick Estevam Kerr e a transformação da apicultura brasileira após a introdução das abelhas africanizadas

Warwick Estevam Kerr, engenheiro agrônomo, geneticista e entomologista, teve uma carreira marcada por importantes contribuições à ciência brasileira, incluindo a criação de departamentos acadêmicos e a formação de pesquisadores em diversas instituições no Brasil e nos Estados Unidos. No entanto, sua trajetória também ficou associada a um episódio de 1957 que transformou a apicultura no país: a introdução das abelhas africanizadas, popularmente e erroneamente chamadas de “abelhas assassinas”.

Em 1956, após estudar a produção de mel na África, Kerr trouxe ao Brasil 51 rainhas da espécie Apis mellifera scutellata, com o objetivo de melhorar a produtividade e a resistência das abelhas europeias já existentes no país. Essas rainhas foram mantidas em quarentena em Rio Claro, na Universidade Estadual Paulista (Unesp), sob medidas que buscavam evitar sua fuga para o meio ambiente. Contudo, devido à remoção inadvertida das telas de contenção por um funcionário, 26 rainhas escaparam, cruzando-se com abelhas europeias e originando as abelhas africanizadas.

Impactos iniciais e desafios

As abelhas africanizadas se espalharam rapidamente pelo Brasil e posteriormente por outras regiões das Américas. Caracterizadas por um comportamento defensivo mais acentuado, apresentaram dificuldades para os apicultores acostumados à espécie europeia. Ataques a humanos e animais, além da maior sensibilidade das abelhas a estímulos, geraram temor e desistência da apicultura por parte de muitos produtores, que não dispunham de equipamentos ou técnicas adequadas para o manejo dessa nova população.

Esse contexto deu origem ao mito das “abelhas assassinas”, alimentado pela falta de conhecimento técnico e pela cobertura midiática dos incidentes. Na realidade, os ataques eram respostas defensivas para proteger a colônia, com as abelhas podendo atingir pessoas e animais a distâncias consideráveis da colmeia.

Adaptação e avanços na apicultura

Com o tempo, a apicultura brasileira passou por transformações significativas. Pesquisadores, incluindo Kerr e sua equipe, desenvolveram práticas específicas para o manejo das abelhas africanizadas, como a adoção de equipamentos de proteção, uso de fumigadores maiores, afastamento dos apiários de áreas residenciais e seleção de colmeias mais produtivas e menos agressivas. Esses avanços permitiram não apenas o controle dos riscos, mas também a valorização das características produtivas das abelhas africanizadas, que superavam em produção as europeias.

O Brasil, atualmente, é um dos maiores produtores e exportadores mundiais de mel e própolis, resultado do aprendizado e da adaptação da apicultura às condições locais e às características das abelhas africanizadas.

Legado científico de Warwick Estevam Kerr

Além do episódio com as abelhas, Kerr teve papel fundamental na expansão da ciência no Brasil, atuando como diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Sua contribuição incluiu também o estudo das abelhas sem ferrão, especialmente na região Norte do país.

Embora tenha enfrentado críticas e dificuldades durante sua vida, incluindo perseguições políticas, Kerr consolidou um legado que ultrapassa o episódio das abelhas africanizadas, sendo reconhecido como um dos principais cientistas brasileiros do século XX.