Nos últimos meses, livrarias especializadas em obras antigas e usadas têm recebido pedidos atípicos de empresas de tecnologia, especialmente localizadas no exterior, que adquirem grandes quantidades de livros para digitalização. Essas aquisições, muitas vezes em prazos curtos e com custos de envio elevados, despertaram a atenção de profissionais do setor e pesquisadores de inteligência artificial.
Marçal Font, livreiro com duas décadas de experiência na cidade de Badalona, Espanha, relata que, apesar da rotina com transações incomuns, o padrão de compra recente chamou atenção pela frequência e volume incomuns, o que motivou uma investigação junto a colegas e especialistas da área de IA. O fenômeno não é isolado: relatos similares surgiram em países como Alemanha, Holanda, Nova Zelândia e Austrália.
Projeto Panamá e a digitalização em larga escala
Uma investigação jornalística revelou a existência de um plano denominado “Projeto Panamá”, relacionado a uma empresa de IA que adquiriu livros para digitalização destrutiva — processo que envolve a desmontagem física do exemplar para escaneamento rápido. A empresa Anthropic, envolvida em uma ação judicial coletiva por uso não autorizado de obras para treinamento de seus modelos, concordou em pagar uma indenização bilionária nos Estados Unidos.
O método destrutivo consiste no corte da lombada do livro para separar suas páginas, que são então digitalizadas em alta velocidade, inviabilizando a reconstrução do exemplar físico. Tal prática é adotada por razões de escala e custo, permitindo a digitalização de milhões de obras, mas gera preocupações quanto à preservação do patrimônio cultural e à perda de informações contextuais presentes no objeto físico.
Impactos para o patrimônio cultural e o treinamento da IA
Especialistas destacam que, embora a digitalização contribua para a ampliação do acesso ao conhecimento, a eliminação do livro físico pode comprometer a conservação de elementos essenciais, como encadernação, anotações e ilustrações, que enriquecem a compreensão das obras. Além disso, obras raras ou de tiragens limitadas correm risco de desaparecimento sem reposição adequada.
O objetivo principal dessas digitalizações está relacionado ao treinamento de grandes modelos de linguagem (LLMs), que dependem de vastos conjuntos de dados textuais para aprimorar suas capacidades de compreensão e geração de texto. Inicialmente alimentados por conteúdos digitais disponíveis na internet, esses modelos passaram a incorporar textos de livros digitalizados para ampliar seu repertório.
Desafios e propostas para o futuro
Há um consenso entre livreiros e pesquisadores sobre a necessidade de um equilíbrio entre a digitalização para uso tecnológico e a preservação do patrimônio bibliográfico. A recomendação é que as próprias instituições e comunidades detentoras desses acervos realizem a digitalização e mantenham o controle sobre os dados, garantindo acesso e preservação das características originais das obras.
Além disso, especialistas alertam para o risco de um ciclo fechado na inteligência artificial, em que os modelos sejam treinados predominantemente com conteúdos gerados por outras IAs, o que poderia levar à degradação da qualidade da informação ao longo do tempo.
Enquanto isso, livrarias como a Fénix continuam a receber pedidos que indicam a continuidade dessas práticas, sinalizando que a digitalização massiva de livros para alimentação de sistemas de inteligência artificial permanece em curso.
