PANORAMA NACIONAL — JORNALISMO DE ANÁLISE E CONTEXTO domingo, 19 de julho de 2026
Brasil

Clonagem de imagem por IA em canais do YouTube gera investigação por desinformação médica

O otorrinolaringologista Hélio Brasileiro vem enfrentando um problema crescente: sua imagem e identidade foram clonadas por inteligência artificial em diversos canais do YouTube, que utilizam seu rosto para divulgar informações de saúde sem autorização. Esses vídeos, voltados especialmente para o público idoso, apresentam conteúdos alarmistas e recomendam tratamentos alternativos que substituem orientações médicas tradicionais.

Operação de rede e conteúdo replicado

Uma investigação da BBC News Brasil identificou ao menos cinco canais que utilizam a imagem do médico de forma indevida, além de outros que replicam conteúdo com o mesmo roteiro e títulos, indicando uma possível operação por um grupo ou mesmo indivíduo. Entre os temas abordados estão alertas infundados sobre banhos quentes e seus supostos efeitos negativos ao coração, além de recomendações de remédios naturais como substitutos de medicamentos prescritos.

Essas páginas somam centenas de milhares de seguidores e, segundo levantamento da organização CTRL+Z, canais similares que utilizam inteligência artificial para discutir saúde acumulam mais de 70 milhões de visualizações. Apesar de denúncias e da remoção parcial desses conteúdos pelo Google após reportagens, as páginas que usam a imagem de Hélio Brasileiro permanecem ativas.

Repercussão legal e riscos à saúde pública

Após registrar boletim de ocorrência na Polícia Civil de São Paulo, o caso está sob investigação no 3º Distrito Policial de Sorocaba, com apurações sobre falsidade ideológica, falsa identidade, falso alarme e tentativa de difamação. A delegada responsável destacou o risco que essas ações representam, incluindo o potencial para envenenamento ou automedicação inadequada da população, especialmente dos idosos.

Especialistas alertam que conteúdos que desencorajam tratamentos médicos regulamentados podem colocar a saúde dos indivíduos em risco, uma vez que medicações e orientações precisam ser personalizadas conforme condições clínicas específicas. O vice-presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM) ressalta que o Conselho pode encaminhar denúncias às autoridades competentes para coibir esse tipo de desinformação.

Responsabilidade das plataformas e apelo do médico

O YouTube afirmou que segue diretrizes rigorosas contra desinformação médica, incluindo conteúdos gerados por inteligência artificial, e que adota medidas para informar os usuários sobre a origem desses vídeos. No entanto, não houve resposta específica sobre os casos envolvendo a imagem de Hélio Brasileiro.

O médico, que também mantém um canal legítimo com mais de 270 mil inscritos, manifesta preocupação com o impacto dessas falsas informações, que podem levar ao abandono de tratamentos essenciais. Ele destaca que sua atuação é informar e que espera que as autoridades e plataformas tomem medidas para impedir a continuidade dessas fraudes, que considera uma ameaça à saúde pública.