PANORAMA NACIONAL — JORNALISMO DE ANÁLISE E CONTEXTO quarta-feira, 3 de junho de 2026
Brasil

Imigrantes venezuelanos enfrentam condições precárias em acampamentos na fronteira de Roraima

Na cidade de Pacaraima, localizada na fronteira entre Brasil e Venezuela, cerca de 1,5 mil imigrantes venezuelanos vivem em situação de rua, representando aproximadamente 22% da população local, estimada em 15 mil habitantes. Muitos deles ocupam acampamentos improvisados às margens da rodovia BR-174, principal ligação terrestre entre os dois países, onde pelo menos 30 famílias residem em barracas e abrigos construídos com lonas, madeira e papelão.

As condições são adversas, sobretudo durante a noite, quando as temperaturas podem chegar a 16º C, e a infraestrutura precária dificulta o acesso a serviços básicos, como higiene e alimentação. Em geral, os imigrantes cozinham em fogões improvisados e dependem de doações para se alimentar. A falta de banheiros públicos acessíveis obriga muitos a utilizarem áreas de mata próximas para suas necessidades.

Contexto da migração e iniciativas governamentais

O fluxo migratório venezuelano para Roraima tem apresentado crescimento significativo. Nos primeiros seis meses do ano, mais de 16 mil pedidos de refúgio foram registrados, superando em 20% o total de solicitações de 2017. Estima-se que, nos últimos 18 meses, cerca de 128 mil venezuelanos tenham entrado pelo município de Pacaraima, embora parte tenha retornado à Venezuela ou se deslocado para outras regiões do Brasil.

Em resposta à demanda, o governo federal, por meio da Força Tarefa Logística Humanitária, está implantando o abrigo BV8, destinado a imigrantes não indígenas, com capacidade para 500 pessoas. Atualmente, o estado de Roraima possui dez abrigos públicos, que abrigam aproximadamente 4,6 mil venezuelanos, mas ainda há registros de imigrantes em situação de rua em dois terços dos municípios do estado.

Histórias de imigrantes

Entre os que buscam refúgio, está Angélia Aguilera, jovem de 18 anos que vive com o marido e o filho de um ano nas ruas de Pacaraima há cerca de um mês. A família saiu da cidade de Maturin, na Venezuela, devido à escassez de alimentos, medicamentos e emprego. O esposo de Angélia, que antes trabalhava em uma multinacional, teve seu salário corroído pela inflação e decidiu abandonar o emprego para tentar uma nova vida no Brasil, onde atualmente vende café nas ruas.

Outro caso é o de Luiz Sereño, de 20 anos, que também deixou a Venezuela em busca de melhores condições. Ele demonstra gratidão ao Brasil, simbolizada pelas bandeiras do país que colocou em sua barraca. Luiz trabalha lavando carros em Pacaraima e envia parte dos recursos para sua filha que permanece na Venezuela.

Desafios e perspectivas

Boa Vista, capital de Roraima, abriga cerca de 25 mil venezuelanos, o que corresponde a 7,5% da população local, com alta taxa de desemprego entre eles. Para aliviar a concentração na fronteira, o processo de interiorização tem transferido imigrantes para outras cidades brasileiras por meio de voos da Força Aérea Brasileira, contemplando destinos como São Paulo, Manaus e Brasília.

Apesar dos esforços governamentais, a situação dos venezuelanos em Roraima continua desafiadora, com necessidade de ampliar o acesso a moradia digna, serviços de saúde e oportunidades de emprego, para garantir a integração social e o respeito aos direitos humanos desses imigrantes.