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Brasil

Redirecionamento de atenção em crianças: análise da técnica popular para conter o choro infantil

Uma técnica viral nas redes sociais, que consiste em chamar por “Jéssica” para interromper o choro de crianças, tem despertado discussões entre profissionais da psicologia e educação. Embora pareça uma solução rápida para momentos de descontrole, o método baseia-se em um princípio psicológico conhecido como redirecionamento de atenção, e não em uma ação com efeito calmante direto.

Funcionamento do redirecionamento de atenção no cérebro infantil

Quando uma criança está em crise emocional, seu cérebro ainda não está plenamente desenvolvido para processar a intensidade das emoções experimentadas. O chamado inesperado pela “Jéssica” atua como um estímulo externo que compete com a desregulação interna, desviando temporariamente o foco da criança do motivo do choro para a nova situação apresentada. Isso significa que a criança interrompe o choro momentaneamente, sem necessariamente ter se acalmado de fato.

Essa mudança de foco é explicada pela psicóloga Bianca Dalmaso, que ressalta que a reação motora para o choro é suspensa, mas o estado emocional pode permanecer o mesmo. A professora Luciene Tognetta complementa que, na primeira infância, o aprendizado é mais prático e sensorial, e a introdução de novos estímulos pode ajudar a criança a sair do estado de caos emocional.

Aplicações e limitações da técnica

O sucesso da estratégia depende da capacidade dos pais ou cuidadores de criar um cenário lúdico que capture a atenção da criança, sem que isso se torne uma ameaça ou fonte de medo. A utilização da técnica como uma ferramenta para redirecionar o foco pode ser válida em situações pontuais, especialmente para interromper birras, mas não é eficaz em casos onde o choro está relacionado a necessidades básicas não atendidas, como fome ou cansaço.

Bruno Jardini Mäder, especialista em psicologia, alerta que em situações de sofrimento real, o redirecionamento pode não ser suficiente e outras abordagens, focadas no acolhimento e na compreensão do motivo do choro, são necessárias para promover a regulação emocional da criança.

Impactos no desenvolvimento emocional infantil

O uso frequente do redirecionamento como único recurso para interromper o choro pode prejudicar o aprendizado da criança sobre suas próprias emoções e a capacidade de lidar com a frustração. A birra, enquanto manifestação de uma expectativa frustrada, é uma oportunidade para que os adultos atuem como suporte cognitivo, ajudando a criança a nomear e compreender seus sentimentos.

Especialistas destacam que a supressão rápida das expressões emocionais pode gerar dificuldades futuras no enfrentamento de situações adversas e no desenvolvimento da autorregulação. A criança pode interpretar que não é permitido manifestar seu desconforto, que suas emoções devem cessar rapidamente ou que terceiros devem resolver seus conflitos emocionais.

Orientações para diferentes faixas etárias

Para crianças até dois anos, recomenda-se contato físico e um tom de voz tranquilo para promover segurança e regulação do sistema nervoso. Entre dois e cinco anos, é importante validar a emoção da criança e estabelecer limites, auxiliando na identificação dos sentimentos e na aceitação da frustração. A partir dos seis anos, o diálogo e o ensino de técnicas de autorregulação, como exercícios de respiração, são indicados para estimular a autonomia emocional.

Considerações éticas sobre a exposição infantil nas redes sociais

Além das implicações no desenvolvimento emocional, a divulgação de vídeos que mostram crianças em momentos de vulnerabilidade levanta questões éticas. A exposição do sofrimento infantil para entretenimento pode comprometer a privacidade da criança e gerar consequências negativas, como constrangimentos futuros. Profissionais recomendam cautela e reflexão sobre a publicação desse tipo de conteúdo, enfatizando a necessidade de respeitar a dignidade e o bem-estar das crianças.