PANORAMA NACIONAL — JORNALISMO DE ANÁLISE E CONTEXTO sábado, 13 de junho de 2026
Brasil

Uso do travessão na literatura evidencia sofisticação e não indica autoria por inteligência artificial

O travessão, sinal de pontuação que tem sido alvo de desconfiança com o avanço das ferramentas de inteligência artificial, como o ChatGPT, é na verdade um elemento clássico e sofisticado da escrita. Obras de autores como Machado de Assis e Fiódor Dostoiévski demonstram que o uso desse recurso é parte integrante da norma culta e do estilo literário apurado, e não um indicativo de autoria automatizada.

Esse sinal é utilizado em diversas funções, desde a introdução da fala de personagens até a criação de pausas reflexivas ou interrupções no fluxo do texto, desempenhando papel semelhante ao da vírgula para aumentar a clareza e a fluidez. Segundo especialistas em linguagens, o travessão é comum em textos acadêmicos e jurídicos, e seu emprego revela domínio da norma padrão da língua.

Eduardo Calbucci, professor de Linguagens, destaca que a inteligência artificial replica padrões encontrados em textos existentes, incluindo o uso do travessão. Por isso, sua presença isolada não deve ser interpretada como um sinal confiável para identificar autoria artificial. A verdadeira mudança que pode levantar suspeitas é a alteração abrupta no estilo textual, que pode indicar uma quebra na consistência da escrita.

Além disso, ferramentas que tentam detectar se um texto foi gerado por IA ainda apresentam limitações e podem indicar falsos positivos, segundo Luiz Leduíno de Salles Neto, professor do ICT/Unifesp. Portanto, a presença do travessão não configura, por si só, evidência de uso de inteligência artificial.

Exemplos clássicos do uso do travessão

O emprego do travessão é recorrente em grandes autores da literatura universal. Em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, o sinal é utilizado para criar pausas e dar ênfase reflexiva. Clarice Lispector, em “A Hora da Estrela”, utiliza o travessão para interrupções introspectivas. João Guimarães Rosa, em “Grande Sertão: Veredas”, emprega o recurso para destacar digressões filosóficas.

Na literatura estrangeira, Emily Dickinson usava o travessão para marcar hesitações e pausas abruptas em seus poemas. Virginia Woolf, Marcel Proust e William Shakespeare também fizeram uso do sinal para criar efeitos de pausa dramática, interrupção do fluxo de consciência e reformulações dentro do texto.

Assim, o travessão permanece um elemento valioso para a clareza e sofisticação textual, com tradições que remontam a séculos antes do advento da inteligência artificial. Seu uso, portanto, deve ser compreendido no contexto de domínio linguístico e estilo, e não como um indicativo exclusivo de autoria por máquinas.