O travessão, um sinal de pontuação que vem sendo questionado recentemente em função da popularização de ferramentas de inteligência artificial, mantém seu lugar consolidado na tradição literária e acadêmica. Embora haja uma percepção crescente de que seu uso possa indicar a autoria de textos por máquinas, escritores renomados como Machado de Assis e Fiódor Dostoiévski demonstram que o recurso é legítimo e refinado.
O professor Eduardo Calbucci, especialista em linguagens, destaca que o travessão é um instrumento sofisticado para ampliar a clareza e a variação na pontuação, sendo comum em textos acadêmicos e jurídicos. Ele explica que, embora a inteligência artificial produza textos baseados em materiais já existentes, o uso do travessão não deve ser interpretado isoladamente como um indício de autoria artificial.
Além disso, Luiz Leduíno de Salles Neto, docente do ICT/Unifesp, ressalta que as ferramentas atuais para detectar textos gerados por IA não são infalíveis e podem produzir falsos positivos, indicando incorretamente a origem dos textos. Portanto, a presença ou ausência do travessão não pode ser usada como critério exclusivo para identificar textos produzidos por máquinas.
Uso Histórico do Travessão na Literatura
O travessão tem papel importante em obras clássicas e modernas, sendo empregado para marcar pausas reflexivas, interrupções no fluxo de pensamento ou ênfase estilística. Exemplos notáveis incluem:
- Machado de Assis, em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, utiliza o travessão para destacar comparações e reflexões.
- Clarice Lispector aplica o sinal para interrupções introspectivas e fluxo de consciência em “A Hora da Estrela”.
- João Guimarães Rosa, em “Grande Sertão: Veredas”, usa o travessão para aprofundar ideias filosóficas e ensaísticas.
- Fiódor Dostoiévski emprega o travessão em traduções para marcar hesitações e ironias no discurso dos personagens.
- Autores internacionais como Emily Dickinson, Virginia Woolf, Marcel Proust e William Shakespeare também fazem uso frequente do travessão para efeitos estilísticos diversos.
Esses exemplos reforçam que o travessão é um recurso consolidado na norma culta da língua e na tradição literária, utilizado para aprimorar a expressividade e a clareza do texto.
Assim, a desconfiança em relação ao uso do travessão deve considerar o contexto geral do estilo e da coerência do texto, e não apenas a presença isolada do sinal. Mudanças abruptas no estilo do autor podem ser mais indicativas de autoria artificial do que o uso de um ou outro recurso pontuacional.
