PANORAMA NACIONAL — JORNALISMO DE ANÁLISE E CONTEXTO sábado, 13 de junho de 2026
Brasil

Warwick Estevam Kerr e o impacto das abelhas africanizadas na apicultura brasileira

Warwick Estevam Kerr, engenheiro agrônomo, geneticista e entomologista, desempenhou papel fundamental na ciência brasileira, atuando como professor em diversas universidades nacionais e internacionais, além de ocupar cargos de destaque como diretor científico da Fapesp, diretor do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Apesar de sua extensa trajetória acadêmica e administrativa, Kerr é frequentemente lembrado pelo episódio ocorrido em 1957, quando introduziu abelhas africanas no Brasil, evento que gerou controvérsia e transformações na apicultura nacional.

Em 1956, após estudar a produção de mel na África, Kerr trouxe ao Brasil 51 rainhas da espécie Apis mellifera scutellata, com o objetivo de aumentar a produtividade e a resistência das abelhas europeias já existentes no país, especialmente nas regiões Sul e Sudeste. Essas abelhas foram inicialmente mantidas em quarentena em colmeias protegidas por telas para evitar a fuga das rainhas. Contudo, a remoção inadvertida dessas barreiras por um funcionário resultou na fuga de 26 rainhas que cruzaram com as abelhas europeias, originando as chamadas abelhas africanizadas.

Repercussões e desafios iniciais

As abelhas africanizadas apresentaram comportamento defensivo mais intenso, atacando em maior número e a distâncias maiores da colmeia, o que causou acidentes com pessoas e animais, elevando a mortalidade anual de 120 para 180 casos. A falta de conhecimento técnico e equipamentos adequados levou muitos apicultores a abandonarem a atividade, e a imprensa contribuiu para a criação do mito das “abelhas assassinas”, associando o comportamento de defesa das abelhas a ataques injustificados.

Com o tempo, pesquisadores desenvolveram métodos específicos para o manejo dessas abelhas, incluindo o uso de equipamentos de proteção, fumigadores maiores e técnicas para seleção de rainhas mais mansas e produtivas. A introdução de rainhas italianas para cruzamento também contribuiu para a redução da agressividade da população, permitindo a retomada e expansão da apicultura no país.

Legado e avanços na apicultura brasileira

Apesar das dificuldades iniciais, a iniciativa de Kerr impulsionou a apicultura brasileira a um novo patamar, tornando o Brasil um dos maiores produtores e exportadores de mel e própolis do mundo. O comportamento adaptativo das abelhas africanizadas, sua resistência a parasitas como o ácaro Varroa destructor e a limpeza natural das colmeias foram fatores que favoreceram a produtividade. Além disso, Kerr também contribuiu significativamente para o estudo das abelhas sem ferrão, especialmente na região Norte.

Warwick Estevam Kerr faleceu em 2018, aos 96 anos, deixando um legado de pioneirismo científico e institucional, com destaque para sua capacidade de enfrentar as consequências do episódio das abelhas africanizadas e transformar um desafio em oportunidade para a apicultura nacional.